
Tô cansada! Não é só físico, é um cansaço que se mistura com culpa, com excesso de responsabilidades e com a sensação de que nunca é suficiente. Sentei na frente do computador, coloquei meu fone, respirei fundo e entrei na chamada. Minha psicóloga atendeu, soltei de uma vez: “ser mãe é bom demais, mas é pesado demais também. Boa tarde, Mari!” Naquele momento, ela já sabia o tema da nossa conversa.
A terapeuta me olhou com calma, sem pressa, e esperou. Então as palavras começaram a sair. Contei sobre o medo de falhar, sobre a cobrança que não vem dos outros, mas de mim mesma. Sobre como tento ser tudo ao mesmo tempo: mãe, estudante dedicada, ter almoço pronto todo dia, ter um corpo saudável, fazer terapia, ser presente. E, no meio de tudo isso, quase esqueço que também sou gente.
Foi quando, sem perceber, escorreguei para o assunto que venho carregando em silêncio: a perda da minha mãe e do meu irmão. Duas ausências tão próximas, em tão pouco tempo, que o chão desapareceu debaixo dos meus pés. E eu disse a ela, pela primeira vez em voz alta: “a responsabilidade não me deixou chorar.” Porque enquanto tudo desmoronava, eu ainda precisava ser mãe. Eu ainda precisava acordar cedo, preparar lanche, ajudar na tarefa, sorrir para não assustar. Não tive o direito de parar, de me encolher, de viver o luto como ele merecia ser vivido.
A terapeuta perguntou: “E o que você acha que sua filha precisava de você nesse momento?”
Demorei a responder, porque a resposta óbvia seria “força”. Mas, no fundo, percebi que não era isso. Talvez ela precisasse só de verdade. Precisasse ver que a vida também dói, que perder machuca, que o choro é parte do amor. Porque esconder minha dor não a protegeu: apenas me impediu de ser inteira. Ali, naquela sessão às 15 horas, de uma terça-feira, percebi que ser mãe não é sobre blindar os filhos da realidade, mas sobre ensiná-los a atravessá-la. Mostrar que a gente cai, que a gente sofre, mas que ainda assim seguimos. Isso não é fraqueza, é humanidade.
Às mães que talvez leiam este texto, quero dizer pra vocês: vocês não precisam ser indestrutíveis. Seus filhos não precisam de super-heroínas. Eles precisam de mães que abraçam, que riem, que choram, que erram e pedem desculpas. Precisam aprender, no colo de vocês, que perfeição não existe, mas amor existe, e é isso que sustenta qualquer relação familiar.
Naquele dia, saí da terapia entendendo algo que mudou a forma como enxergo a maternidade: Laurinha não precisa de uma mãe que nunca desaba, que esconde a dor na piada. Precisa de uma mãe que a ensine a levantar.

Deixe um comentário