• Me tornei mãe aos 21 anos.
    Uma gravidez muito desejada, mas não planejada. A vida chegou antes das certezas, antes dos cálculos, antes da maturidade que eu achava que precisava ter. E, mesmo sem saber exatamente como seria, escolhi viver aquilo.

    Naquele tempo, eu estava no quinto período da faculdade de odontologia. Tinha sonhos em andamento, metas desenhadas, uma identidade ainda em construção. Quando a maternidade chegou, eu pausei tudo. Tranquei a faculdade e me dediquei integralmente a esse novo papel. Não foi uma renúncia amarga, foi uma escolha consciente, ainda que atravessada pelo medo. Eu precisava aprender a ser mãe antes de qualquer outra coisa.

    A maternidade não veio romantizada. Veio real. Veio com cansaço, insegurança, dúvidas silenciosas e um amor que, às vezes, assustava de tão grande. Aprendi cedo que amar não é só sentir, é sustentar. É acordar exausta. É aprender fazendo. É errar, pedir desculpa e tentar de novo no dia seguinte.

    Em 2023, quando ela tinha seis anos, algo em mim se reorganizou. Voltei para a faculdade de odontologia. Não voltei só por ela. Voltei por mim também. Voltei porque meus sonhos ainda existiam, mesmo depois de tanto tempo guardados. Porque eu precisava lembrar que eu também era projeto, desejo e futuro.

    Ainda assim, minha volta ensinava algo para ela, sem precisar de discurso: que sonhos são possíveis, que recomeços existem, que não há idade certa para retomar o que ficou em pausa. Que a vida não termina quando muda de rota.

    O amor que sinto por ela não é daqueles que se explicam com facilidade. Ele mora no cuidado constante, na preocupação silenciosa, no pensamento que antecede qualquer decisão. Às vezes fala pouco, às vezes fala muito. Às vezes é riso solto, às vezes recolhimento. E tudo nela parece verdadeiro, sem esforço, sem ensaio. Acompanhar quem ela está se tornando é um exercício diário de amor e desapego. Porque amar uma criança é, desde cedo, aprender a soltar. É estar por perto sem invadir, orientar sem apagar, proteger sem limitar. É aceitar que ela não veio para preencher expectativas, mas para ser quem é.

    E se eu tivesse que resumir tudo o que sinto por ela, não falaria de maternidade, nem de escolhas, nem de caminhos. Diria apenas isso: há um amor aqui que não se cansa. Que não exige. Que não diminui. Um amor atento, firme e silencioso.

  • Eu tenho muitas fotos para colocar nesse texto. Mas, optei por não colocar nenhuma.

    2025 não foi um ano qualquer. Foi um ano que me atravessou. Perdi minha mãe e meu irmão, e isso muda o jeito de ver o tempo, o corpo, os dias comuns. Algumas ausências passam a morar na gente. Não vão embora, apenas se acomodam, às vezes silenciosas, às vezes barulhentas demais.

    Mas, curiosamente, não foi um ano feito só de perdas. Também foi um ano de encontros, de pequenas reconstruções, de vida acontecendo apesar de tudo. Vi pessoas que não via há muito tempo e que deixaram meus dias mais leves. Esses reencontros trouxeram uma sensação estranha e boa: a de que certas conexões sobrevivem ao tempo e ao caos.

    Teve mudança de casa. Nosso apartamento, em uma ótima localização, virou cenário de um recomeço possível. Tive mais tempo com minhas irmãs, meus avós e meu pai e isso foi essencial. Dividir a dor, as lembranças, o cotidiano, fez tudo pesar um pouco menos.

    E então chega 2026.

    Sem promessas grandiosas, sem expectativas irreais. Chega como continuidade. Será meu penúltimo ano na faculdade de odontologia, um período de mais responsabilidade e consciência do caminho que escolhi. Laurinha vai para uma escola nova. Acompanhar esse passo é ver o tempo acontecendo de forma concreta, quase palpável. Ela cresce, e eu aprendo a crescer junto, tentando ser abrigo enquanto o mundo se amplia ao redor dela.

    Para esse ano novo, não faço pedidos grandiosos. Desejo presença. Desejo equilíbrio. Desejo continuar sensível sem me perder. Quero honrar quem se foi sem deixar de viver por quem ficou. Quero seguir com coragem suficiente para os dias difíceis e delicadeza para os dias bons.

    2025 não foi um ano que passou. Foi um ano que ficou.
    2026 começa sem grandes anúncios, mas com a vida seguindo, dia após dia, do jeito possível.
    Volto no fim do ano para contar, com mais calma, o que este novo ano resolveu me entregar.

  • Existe um tipo de amor que nasce com nome de irmã, mas cresce grande demais para caber só nessa palavra. Gabriela é isso para mim: começou como laço de sangue e virou laço de alma.

    Ela chegou na minha vida quando eu já era grande, mas veio pequena, frágil, cabendo nos meus braços. E desde então, sem pedir licença, foi cabendo também nos meus medos, nos meus sonhos, nas minhas orações, nos meus planos que nem eram meus, porque quando se ama alguém assim, a gente passa a sonhar em duas direções.

    São 16 anos entre nós. Às vezes parece muito, às vezes parece nada. Porque amor não mede tempo em calendário, mede em cuidado, em presença, em preocupação silenciosa, em orgulho disfarçado de normalidade. Eu sempre a vi crescer com essa sensação estranha e bonita de quem observa uma parte de si mesma aprender a andar sozinha.

    Gabriela me ensinou coisas sem nunca sentar para ensinar. Me ensinou sobre paciência quando eu tive que esperar o tempo dela. Sobre delicadeza quando percebi que o mundo pesa diferente em quem ainda está descobrindo tudo. Sobre amor incondicional quando passei a amá-la sem exigir que ela fosse nada além do que é.

    Às vezes eu quero protegê-la do mundo inteiro. Outras vezes, preciso aceitar que ela também precisa do mundo para se tornar quem será. E isso dói. Porque amar também é aprender a soltar com o coração tremendo.

    Ela não sabe, ou talvez saiba, mas tem dias em que basta pensar nela para que tudo em mim fique um pouco mais em ordem. Como se a existência dela, só por existir, fosse uma resposta silenciosa às minhas bagunças internas.

    Gabi é meu amor maior que o fraternal. É minha menina, mesmo quando cresce. É minha irmã, mesmo quando virar mulher. É meu orgulho quieto, minha torcida barulhenta, minha oração diária que não tem palavras, só sentimento.

    Enquanto eu existir, ela terá em mim esse lugar: de abrigo, de colo, de cuidado imperfeito, mas verdadeiro. Porque há amores que não se explicam. Só se vive. E ela é um deles.

  • Quando a gente gosta de alguém, até os detalhes mais bobos ganham um peso desproporcional. Já perceberam?! É como colocar muita força na mão para segurar uma sacola vazia: É uma expectativa que não se cumpre.

    O coração tende a colocar peso em cada detalhe. Mas é preciso ter cuidado: porque, muitas vezes, o outro não está agindo para nos ferir, ele simplesmente não sente a mesma urgência que sentimos.

    O que fazer, então?
    A primeira resposta que vem é “dosar”. Mas quem já tentou sabe que dosar sentimentos é bem mais difícil na prática. Textos como esse, músicas e conselhos de amigos, são bem mais fáceis na teoria, é, ou não é? Nessas horas, o que salva é a honestidade consigo mesma. Se você não consegue soltar aos poucos, talvez precise de um corte mais firme

    O problema é que confundimos intensidade com exagero. Começamos a acreditar que sentir demais é defeito, que compartilhar é peso. Mas a verdade é que intensidade é só jeito, e o problema não está em sentir, mas em insistir em caber onde não há espaço.

    Porque, no fim, não é sobre bloquear alguém, nem sobre se calar pra sempre. É sobre encontrar o ponto em que o coração descansa, em que o silêncio já não pesa, e em que a gente entende que não precisa ser prioridade, além de nós mesmos.

  • cansada! Não é só físico, é um cansaço que se mistura com culpa, com excesso de responsabilidades e com a sensação de que nunca é suficiente. Sentei na frente do computador, coloquei meu fone, respirei fundo e entrei na chamada. Minha psicóloga atendeu, soltei de uma vez: “ser mãe é bom demais, mas é pesado demais também. Boa tarde, Mari!” Naquele momento, ela já sabia o tema da nossa conversa.

    A terapeuta me olhou com calma, sem pressa, e esperou. Então as palavras começaram a sair. Contei sobre o medo de falhar, sobre a cobrança que não vem dos outros, mas de mim mesma. Sobre como tento ser tudo ao mesmo tempo: mãe, estudante dedicada, ter almoço pronto todo dia, ter um corpo saudável, fazer terapia, ser presente. E, no meio de tudo isso, quase esqueço que também sou gente.

    Foi quando, sem perceber, escorreguei para o assunto que venho carregando em silêncio: a perda da minha mãe e do meu irmão. Duas ausências tão próximas, em tão pouco tempo, que o chão desapareceu debaixo dos meus pés. E eu disse a ela, pela primeira vez em voz alta: “a responsabilidade não me deixou chorar.” Porque enquanto tudo desmoronava, eu ainda precisava ser mãe. Eu ainda precisava acordar cedo, preparar lanche, ajudar na tarefa, sorrir para não assustar. Não tive o direito de parar, de me encolher, de viver o luto como ele merecia ser vivido.

    A terapeuta perguntou: “E o que você acha que sua filha precisava de você nesse momento?”

    Demorei a responder, porque a resposta óbvia seria “força”. Mas, no fundo, percebi que não era isso. Talvez ela precisasse só de verdade. Precisasse ver que a vida também dói, que perder machuca, que o choro é parte do amor. Porque esconder minha dor não a protegeu: apenas me impediu de ser inteira. Ali, naquela sessão às 15 horas, de uma terça-feira, percebi que ser mãe não é sobre blindar os filhos da realidade, mas sobre ensiná-los a atravessá-la. Mostrar que a gente cai, que a gente sofre, mas que ainda assim seguimos. Isso não é fraqueza, é humanidade.

    Às mães que talvez leiam este texto, quero dizer pra vocês: vocês não precisam ser indestrutíveis. Seus filhos não precisam de super-heroínas. Eles precisam de mães que abraçam, que riem, que choram, que erram e pedem desculpas. Precisam aprender, no colo de vocês, que perfeição não existe, mas amor existe, e é isso que sustenta qualquer relação familiar.

    Naquele dia, saí da terapia entendendo algo que mudou a forma como enxergo a maternidade: Laurinha não precisa de uma mãe que nunca desaba, que esconde a dor na piada. Precisa de uma mãe que a ensine a levantar.

  • Você não precisa ter todas as respostas agora. A vida não vem com manual e, por mais que as pessoas tentem dizer o contrário, não existe um momento perfeito para nada. Sempre vai faltar dinheiro, coragem, companhia ou tempo, e se você esperar que tudo se encaixe, vai perceber tarde demais que os anos se passaram. Se for amar, ame agora. Se for pedir desculpas, peça agora. Se for mudar de rota, mude agora. Não espere que a vida te dê sinal verde, porque a verdade é que ela nunca dá.

    O medo vai estar presente, a dúvida também. Vai parecer cedo demais ou tarde demais, mas nunca vai parecer exatamente na hora certa. É aí que está a beleza: é no improviso que a vida acontece. Então não se culpe se errar, não desanime se cair, não se assuste se doer. Essas coisas fazem parte de estar vivo. O que não faz sentido é se esconder do mundo esperando um amanhã que talvez nunca chegue.

    Por isso, não adie o que faz seu coração vibrar. Não desperdice energia tentando agradar todo mundo, porque sempre vai existir alguém insatisfeito. Viva do seu jeito, mesmo que não seja o jeito esperado.

    Você já é forte o suficiente, mesmo que ainda não tenha se dado conta. E, se tropeçar, lembre que a vida não pede perfeição, só movimento.

  • Fábio era um universo em movimento. Apaixonado por física, pelo céu, pelos números, por tudo que exigia raciocínio e, ao mesmo tempo, imaginação. Gostava de empinar pipa (mesmo depois dos 30 anos), de rir alto, de transformar qualquer conversa em teoria, fosse sobre ciência ou sobre a vida. Ao mesmo tempo, era firme nas suas ideias, teimoso até o fim, com aquele sorriso de canto que surgia quando ele se sentia dono da razão.

    Meu irmão não seguia manuais, não fazia questão de se encaixar. Vivia no tempo dele, nas escolhas dele, com a coragem (ou teimosia) de quem não se curva para agradar. E, justamente por isso, deixou marcas. Com ele, aprendi que a vida não precisa seguir as regras. Que viver do próprio jeito é também um ato de resistência. E aprendi, da forma mais dura, que a vida é curta demais para a gente pensar que nossos irmãos “não precisavam ter nascido”. Porque, mesmo com todos os altos e baixos, o lugar dele no mundo era único e insubstituível.

    Inclusive gostaria de dizer aqui, que a vida é curta demais para desperdiça-la com arrependimentos. Ele me mostrou, com sua própria existência, que viver do seu jeito já é uma forma de eternidade.

    E então, a vida, sempre tão inesperada, decidiu interromper essa história de repente. Sem aviso, sem tempo de preparação. Um dia ele estava aqui, com suas risadas, teorias e teimosias, no outro ficou só o silêncio. Foi rápido demais, duro demais, injusto demais. A despedida não veio com palavras, não teve ensaio. Veio como um golpe seco, que deixou um vazio que ainda não aprendi a preencher.

    Naquele dia, perdi um irmão. Mas, junto dele, perdi também uma parte de mim.
    Fabinho me ensinou que alguns amores não cabem no tempo. E talvez seja por isso que, mesmo sem ele aqui, eu ainda o encontro em cada lembrança e em cada silêncio que aprendi a respeitar.

  • Não existe meio-termo para aeroportos: ou são tristes demais ou felizes demais. Nunca é meio-feliz ou meio-triste. Eles simbolizam a chegada de um sorriso ou a partida dele. Sempre foi assim. Já vi pessoas saírem da sala de desembarque com abraços que quase tiram o ar, e outras entrarem na porta de embarque com olhos marejados, carregando saudade. É um lugar onde histórias começam e outras se despedem, às vezes para sempre, às vezes só até a próxima vez.

    Tenho medo de avião. O barulho da decolagem, a sensação de estar suspensa no ar, tudo me deixa inquieta. Mas ainda assim, há algo que me encanta: a coragem que existe quando alguém coloca seus sonhos dentro de uma mala e vai viver. Seja para estudar, recomeçar, trabalhar ou simplesmente se perder por aí. Eu sempre acho que é preciso coragem para ir.

    Talvez eu tenha aprendido cedo a lidar com esse ciclo de chegadas e partidas. Meus irmãos sempre moraram longe, e a vida me ensinou que alguns reencontros vêm com prazo de validade. É aquela felicidade intensa na chegada, como se o tempo distante se dissolvesse em segundos… e, dias depois, o aperto no peito na hora de voltar. Amigos também seguiram caminhos distantes, e aprendi a medir a amizade não pela frequência dos encontros, mas pela força de um abraço no saguão do aeroporto.

    Conheci gente assim. Pessoas que transformam o mundo no endereço de casa, que cruzam oceanos para perseguir algo que acreditam, que vivem entre embarques e desembarques como quem respira. E, mesmo de longe, é impossível não admirar a beleza de quem carrega o próprio futuro dentro de uma mala.

    Aeroportos são pressa e espera, abraços longos, alegria e dor na mesma sala.
    E, de alguma forma, sempre que estou neles, sinto que estou no ponto exato onde a vida se revela: entre o ficar e o partir.

  • Minha mãe tinha um nome que parecia já carregar poesia: Maria dos Prazeres. E, por muito tempo, ela foi exatamente isso prazer de estar, de conversar, de viver. Tinha uma presença forte, um jeito corajoso de encarar a vida e uma risada que ocupava todos os espaços. Gostava de praia, de sol na pele, voleibol, de falar alto e de fazer piadas na hora errada. Eu realmente tenho a quem puxar, né?!

    Mainha era um ato de resistência em pessoa. Mulher nobre, de esquerda, apaixonada pela história e pela verdade. Enquanto o mundo à sua volta tentava se encaixar em moldes, ela escolhia ser ela mesma.

    Numa época em que todo mundo alisava o cabelo, ela mantinha os cachos como coro, com o orgulho de quem não precisava de aprovação para existir. Não seguia padrões, e acho que isso foi uma das maiores heranças que deixou para mim.

    Foi uma das melhores jogadoras de vôlei da sua geração e, por causa disso, conquistou bolsa em um dos melhores colégios de Olinda. Depois, foi pra Manaus, onde fez Educação Física. E quando muitos já estariam acomodados, ela decidiu começar de novo: voltou a estudar e se formou novamente aos quarenta e poucos anos. Nunca se rendeu à ideia de que era tarde demais.

    Não teve uma vida fácil, mas, pelo que ela e minhas tias me contavam, era a caçula e a mais mimada da família. E, mesmo assim, sempre soube que queria mais. Eram muitos irmãos, e ela dizia que só os estudos poderiam tirá-la daquela situação. Foi com essa certeza que construiu seus caminhos, sem nunca abrir mão de ser quem era.

    E, do mais absoluto nada, minha mãe estava num corredor de hospital, esperando alguém explicar por que tinha um cateter venoso central no pescoço dela e por que ela entraria numa sala de hemodiálise às pressas. Em dezembro de 2023, a vida resolveu colocar a força dela à prova. Minha mãe perdeu completamente a função renal.

    Passou de uma rotina ativa para dias cronometrados entre o hospital e a volta para casa. O tratamento era duro, cansativo, e não demorou para que as idas semanais até a clínica de diálise, se tornassem parte do calendário dela e também parte da nossa preocupação constante. Mas o corpo foi se rendendo. Aos poucos, a força que eu via desde criança começou a se esconder atrás de olhares longos e silenciosos. Não era mais a mesma mulher que passava o dia na cozinha, tomava sua cervejinha, que saía para a rua sem hora para voltar. Agora, cada passo parecia calculado, cada movimento carregava o peso do cansaço.

    Ainda assim, havia momentos de ternura. Conversas curtas, apertos de mão, olhares que diziam mais do que palavras. E talvez tenha sido isso que me preparou, de alguma forma, para entender que a despedida estava próxima embora ninguém esteja realmente preparado. Tiveram momentos em que fui impaciente e não compreendi tudo o que ela estava vivendo. É difícil assistir de perto alguém que sempre foi força, se tornar frágil. É difícil equilibrar a preocupação, o medo e a rotina da vida que insiste em seguir. Hoje, olhando para trás, entendo que a minha impaciência não era falta de amor, era medo de perder.

    Ela partiu. E, mesmo depois de meses vendo a luta que travava todos os dias, nada me preparou para o silêncio que veio depois. A casa ficou diferente. O mundo ficou diferente. Descobri que existem ausências que fazem barulho, e que a saudade é um tipo de dor que não se cura, apenas se aprende a carregar.

    Ela me deixou muito mais do que lembranças. Me deixou o amor pela vida simples, o riso fácil, o medo de altura, a coragem de enfrentar o que parece impossível, e a certeza de que o amor não acaba quando a pessoa vai embora, ele só muda de lugar. Hoje, quando escrevo sobre minha mãe, não é para falar sobre a doença ou sobre os últimos dias, mas para lembrar como ela viveu: como amou, como riu, como foi inteira em tudo o que fez. E talvez seja essa a forma mais bonita de mantê-la viva.

    Mas essa… essa foi só a primeira parte. Porque o que veio depois, nem mesmo eu estava pronta para escrever. Ainda assim, vou tentar, no próximo texto.