Minha mãe tinha um nome que parecia já carregar poesia: Maria dos Prazeres. E, por muito tempo, ela foi exatamente isso prazer de estar, de conversar, de viver. Tinha uma presença forte, um jeito corajoso de encarar a vida e uma risada que ocupava todos os espaços. Gostava de praia, de sol na pele, voleibol, de falar alto e de fazer piadas na hora errada. Eu realmente tenho a quem puxar, né?!

Mainha era um ato de resistência em pessoa. Mulher nobre, de esquerda, apaixonada pela história e pela verdade. Enquanto o mundo à sua volta tentava se encaixar em moldes, ela escolhia ser ela mesma.

Numa época em que todo mundo alisava o cabelo, ela mantinha os cachos como coro, com o orgulho de quem não precisava de aprovação para existir. Não seguia padrões, e acho que isso foi uma das maiores heranças que deixou para mim.

Foi uma das melhores jogadoras de vôlei da sua geração e, por causa disso, conquistou bolsa em um dos melhores colégios de Olinda. Depois, foi pra Manaus, onde fez Educação Física. E quando muitos já estariam acomodados, ela decidiu começar de novo: voltou a estudar e se formou novamente aos quarenta e poucos anos. Nunca se rendeu à ideia de que era tarde demais.

Não teve uma vida fácil, mas, pelo que ela e minhas tias me contavam, era a caçula e a mais mimada da família. E, mesmo assim, sempre soube que queria mais. Eram muitos irmãos, e ela dizia que só os estudos poderiam tirá-la daquela situação. Foi com essa certeza que construiu seus caminhos, sem nunca abrir mão de ser quem era.

E, do mais absoluto nada, minha mãe estava num corredor de hospital, esperando alguém explicar por que tinha um cateter venoso central no pescoço dela e por que ela entraria numa sala de hemodiálise às pressas. Em dezembro de 2023, a vida resolveu colocar a força dela à prova. Minha mãe perdeu completamente a função renal.

Passou de uma rotina ativa para dias cronometrados entre o hospital e a volta para casa. O tratamento era duro, cansativo, e não demorou para que as idas semanais até a clínica de diálise, se tornassem parte do calendário dela e também parte da nossa preocupação constante. Mas o corpo foi se rendendo. Aos poucos, a força que eu via desde criança começou a se esconder atrás de olhares longos e silenciosos. Não era mais a mesma mulher que passava o dia na cozinha, tomava sua cervejinha, que saía para a rua sem hora para voltar. Agora, cada passo parecia calculado, cada movimento carregava o peso do cansaço.

Ainda assim, havia momentos de ternura. Conversas curtas, apertos de mão, olhares que diziam mais do que palavras. E talvez tenha sido isso que me preparou, de alguma forma, para entender que a despedida estava próxima embora ninguém esteja realmente preparado. Tiveram momentos em que fui impaciente e não compreendi tudo o que ela estava vivendo. É difícil assistir de perto alguém que sempre foi força, se tornar frágil. É difícil equilibrar a preocupação, o medo e a rotina da vida que insiste em seguir. Hoje, olhando para trás, entendo que a minha impaciência não era falta de amor, era medo de perder.

Ela partiu. E, mesmo depois de meses vendo a luta que travava todos os dias, nada me preparou para o silêncio que veio depois. A casa ficou diferente. O mundo ficou diferente. Descobri que existem ausências que fazem barulho, e que a saudade é um tipo de dor que não se cura, apenas se aprende a carregar.

Ela me deixou muito mais do que lembranças. Me deixou o amor pela vida simples, o riso fácil, o medo de altura, a coragem de enfrentar o que parece impossível, e a certeza de que o amor não acaba quando a pessoa vai embora, ele só muda de lugar. Hoje, quando escrevo sobre minha mãe, não é para falar sobre a doença ou sobre os últimos dias, mas para lembrar como ela viveu: como amou, como riu, como foi inteira em tudo o que fez. E talvez seja essa a forma mais bonita de mantê-la viva.

Mas essa… essa foi só a primeira parte. Porque o que veio depois, nem mesmo eu estava pronta para escrever. Ainda assim, vou tentar, no próximo texto.

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